13 de outubro de 2017

Chão

Hoje eu quero te desconcentrar
Deixar-te das coisas sem noção
Tirar-te do eixo, rodopiar-te
Sem os pés plantados fazer dos sonhos o chão


Pintura: Brajmohan Arya






30 de agosto de 2017

Corredor

Tenho os meus segredos
Meus cantos escondidos
Assim como tu e as outras gentes
Tenho portas trancadas no fim do longo corredor
Lá vou amiúde na quietude das descobertas
Tem vez que nada descubro
N'outras vejo tantas coisas que nem quero retornar
Mas, retorno por saber que coisas outras há
Assim como há portas que deixo entreabertas 
Convites para atravessar fronteiras
Para outros olhos me verem por dentro
E quem sabe me revelarem um pouco do que sou


Pintura: Vincent van Gogh

14 de agosto de 2017

Dançando no vácuo

No ruidoso silêncio há uma dança sutil
Bailam sem chão 
Flutuam nos pensamentos
Trespassam os sentimentos
Do aperto do peito tentam escapar
Carecem de espaço para se lançar
No vácuo da vida apenas dançar


Pintura: Escher 

27 de julho de 2017

Uma história

Era uma vez uma moça sem face
Ela não tinha boca
Ela não tinha nariz
Ela não tinha olhos
Nem dos ouvidos ela sabia
Assim era por lhe faltar um tema
E assim, sem tema, a procura vagava 
Buscava algo que lhe desse boca para falar
Algo que pudesse aspirar
Das coisas sentir o cheiro
Do mundo ouvir o que se falava
 Queria também enxergar as coisas, ela queria ver
Mas, sem tema era ainda um rosto sem traços
Mas, dentro dela morava uma alma sedenta
Mesmo sem cheiros sentir, sem dos gostos saber
Sem ver, sem falar, sem ouvir  
Ela seguia, andava, procurava
Mesmo desolada seguindo ia
 Até que um dia na floresta entrou
Floresta que ela não sabia o que era
Pois, as coisas ela não conhecia
Ela não sabia da existência das coisas
Só sabia da alma cheia de urgências
Daquilo que dentro dela o tempo todo se pedia
Quando na floresta chegou 
Mesmo sem saber o que era
Mesmo sem saber como era
Sentiu que ali o tema encontraria 
Foi sentindo o chão em seus passos
Esbarrando nas árvores, tropeçando em raizes
De repente algo a mais começou a sentir 
Sentia o que vinha de fora
Percebeu então que ouvia
Ouvia passos, pássaros, ventos
O farfalhar das folhas enquanto passava
E ouvindo, mesmo sem boca percebeu que sorria
E notou que também havia cheiros
Cheiros do mato úmido, do verde orvalhado
Dos animais que marcaram caminhos
E ela gostava dos cheiros
Sentia-os até no que ouvia
E na floresta mais e mais penetrou
Sentindo, sentindo, sentindo
Até que viu, numa clareira viu
Ali no meio das árvores imensas
Árvores de infinitas alturas
Ali um espaço enorme, circular, claro
Pro alto olhou e no alto viu a lua 
A lua longe, enorme, rotunda, cheia
E aí ela via, sentia os cheiros, ouvia
Ali por um momento parada ficou
Ali percebeu que boca tinha
Podia falar dos cheiros que sentia
Contar sobre os sons que ouvia
Dos sabores que a língua conhecia
Da luz que nela batia
Da face que finalmente reconhecia
Foi quando descobriu que infinitos temas nela cabiam


Pintura: Carolyn Mountainwoman

24 de julho de 2017

Caldeirão

Quero fazer poção mágica
Misturar ingredientes certos
Alegria, ternura e sonhos
Sorrisos, ventura e cores
Leveza, abraços e beijos
Conversas sem fim e silêncios
Tempo sem tempo de ir
Tudo em caldeirão infinito
Para nunca acabar o encanto


Pintura: Emily Balivet